Prólogo

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Crossroads — Volume 1: Ruas do Recomeço 

Prólogo 

O céu de Solara estava cinza e pesado quando Lewis Harcourt atravessou os portões do quartel pela última vez. O vento trazia um cheiro estranho de chuva misturado ao asfalto quente, e aquele contraste o incomodava mais do que devia. Por anos ele vivera em desertos distantes, entre poeira, areia e o eco constante de tiros ao longe. Agora estava em casa — e, ainda assim, não sentia alívio nenhum. Só um vazio frio que crescia a cada passo. 

O escritório de dispensa era pequeno, impessoal, com paredes bege tão sem vida quanto a voz do oficial atrás da mesa. 

— A retirada das tropas do Afeganistão vai continuar nos próximos meses — disse o homem, sem erguer os olhos do formulário. — Isso significa cortes. Você está entre os dispensados. 

Não havia espaço para argumento. Não havia negociação. Só papelada, um aperto de mão protocolar e um "obrigado pelos anos de serviço" que soou tão vazio quanto a sala. 

Mais de uma década resumida em três assinaturas. 

Ao sair carregando uma caixa de papelão com seus pertences, Lewis sentiu o exército escorrer dele como água por um ralo. Aquilo havia sido sua identidade, sua rotina, seu propósito — e agora, simplesmente, não era mais nada. 

Mas restava uma luz no fim do túnel. Ou era o que ele queria acreditar. 

Durante todo aquele tempo longe, mandara para casa quase tudo que ganhava. Tinha um plano: uma casa melhor, um carro novo, uma vida que valesse a pena para a mulher que amava. Era nela que pensava enquanto dirigia até o pequeno imóvel onde moravam. Era nela que pensava ao estacionar. Era nela que pensava ao girar a chave na porta. 

Foi quando o mundo dele desabou. 

A casa estava vazia. Silenciosa. Fria demais para um lugar que ainda devia ter vida. As fotografias tinham saído das paredes, deixando retângulos mais claros como cicatrizes. As gavetas estavam abertas, esvaziadas às pressas. 

Lewis andou pelos cômodos sem conseguir processar o que via, o coração batendo mais forte a cada porta aberta — até encontrar o bilhete sobre a bancada da cozinha. Poucas linhas. Palavras suficientes para destruir uma década. 

*Fui embora. Levei minha mãe comigo. Não aguento mais esperar por uma vida que talvez nunca chegue.* 

Ele leu de novo. E de novo. Até as palavras virarem só tinta sem sentido. Sentou-se no chão da cozinha, o papel tremendo nas mãos, e deixou os anos passarem diante dos olhos: as barracas, as emboscadas, as noites contando os dias que faltavam para voltar — tudo isso para construir um futuro que nunca chegaria a existir. 

E, pela primeira vez em muito tempo, Lewis Harcourt chorou. Não como soldado. Não como veterano condecorado. Só como um homem que tinha acabado de descobrir que estava sozinho. 

--- 

Os meses seguintes passaram como uma névoa espessa. 

A pandemia atingira Solara com força total. Pequenas empresas fecharam as portas em sequência; as grandes cortavam funcionários para sobreviver. O desemprego inchava, e as vagas que sobravam pareciam cada vez mais distantes, cada vez mais cobiçadas. 

Lewis tentou. Todos os dias. 

Acordava antes do sol, vestia a única roupa social decente que ainda tinha, e saía distribuindo currículos por uma cidade que parecia ter parado de precisar de gente como ele. Entrevistas terminavam em promessas vagas — "vamos te ligar", "ainda estamos decidindo" — e os telefonemas nunca vinham. 

Seis meses. 

Seis meses vendo a conta bancária encolher um pouco a cada semana, como areia escorrendo entre os dedos. Seis meses repetindo para si mesmo que ia dar certo, até a frase perder qualquer força. 

--- 

Do outro lado da cidade, Zhao Cheng enfrentava sua própria guerra particular. 

A oficina da família existia desde antes de ele nascer — erguida tijolo por tijolo pelos próprios pais. Cada elevador hidráulico, cada compressor enferrujado, cada ferramenta gasta pelo uso tinha a marca das mãos deles. Então, numa única noite, um carro perdeu o controle numa entrega de peças e levou os dois embora. Sem aviso. Sem despedida. 

Zhao tentou continuar como se nada tivesse mudado — abrir a oficina, atender clientes, fingir normalidade. Mas a dor não pede licença. Ela virou depressão, a depressão virou isolamento, e o isolamento foi comendo a oficina por dentro: funcionários pediram demissão um a um, clientes pararam de aparecer, as contas se acumulavam na mesa enquanto ferramentas e peças eram vendidas só para cobrir o aluguel do mês. 

A única que não foi embora foi Alexia Oliveira. 

Ninguém sabia exatamente o porquê — lealdade, teimosia, ou talvez uma esperança que ela mesma não soubesse explicar. Mas todos os dias ela estava lá, organizando papéis, pagando contas, atendendo telefone, mantendo aquele lugar respirando mesmo quando tudo indicava que devia deixar morrer. 

Foi por isso que ela se assustou quando, depois de meses sem aparecer, Zhao entrou pela porta sem dizer uma palavra. 

Ele caminhou devagar, como quem visita um museu da própria vida. Os olhos passeavam pelos elevadores vazios, pelas fotografias amareladas na parede, pelas marcas que os pais tinham deixado em cada canto. Alexia observou de longe, sem ousar interromper. 

Zhao seguiu até o centro do galpão. E ali, parado entre as máquinas silenciosas, simplesmente desabou. 

As lágrimas vieram sem aviso, sem controle — meses de luto represado finalmente cobrando a conta. Alexia sentiu o peito apertar, mas não se moveu. Algumas dores precisam sair sozinhas. 

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Foi nesse instante que a porta da frente se abriu de novo. 

Lewis entrou, procurando o amigo que não via havia tempo demais. Os dois se encararam por um segundo — e foi o bastante. Nenhuma palavra necessária. Se abraçaram como só dois homens que carregam o mesmo tipo de cansaço sabem se abraçar. 

Quando finalmente se sentaram num par de bancos enferrujados, as horas simplesmente desapareceram entre eles. Lewis falou sobre a dispensa, a casa vazia, o bilhete, os seis meses correndo atrás de empregos que não existiam. Zhao falou sobre o acidente, os pais, a oficina morrendo aos poucos sob seus próprios pés. 

E, por um instante, nenhum dos dois sentiu o peso do mundo sozinho. 

Em determinado momento, Zhao se levantou e fez um gesto na direção de Alexia. 

— Ah — disse ele, como se tivesse esquecido um detalhe óbvio. — Essa aqui é Alexia. Sem ela, essa oficina já seria um estacionamento vazio há meses. 

Lewis se levantou para apertar a mão dela. 

— Lewis. Obrigado por manter o lugar de pé. 

— Alguém tinha que fazer  — ela respondeu, com um sorriso meio cansado, meio genuíno. 

Foi só um olhar. Mas os dois sentiram — aquele tipo raro de conexão que chega sem pedir permissão, instantânea e, de algum jeito, perigosa. Nenhum dos dois comentou nada. Mas Zhao percebeu, e precisou se esforçar para não sorrir. 

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O sol já descia quando Lewis respirou fundo, juntando coragem para o que precisava perguntar. 

— Cheng... você sabe que eu não gosto de pedir favores. 

Zhao arqueou uma sobrancelha. 

— Eu já sabia, pode pedir. 

— Eu preciso de trabalho. Qualquer coisa. 

O sorriso sumiu do rosto de Zhao por um momento. 

— Eu imaginei que fosse isso. 

— Tem alguma coisa que eu possa fazer na região? 

O silêncio que se seguiu pesou mais do que devia. A oficina estava praticamente quebrada. Não havia clientes fixos, não havia caixa, não havia garantia nenhuma de que aquilo sobreviveria ao mês seguinte. 

Mas, olhando para o amigo sentado à frente — cansado, perdido, mas ainda de pé — Zhao percebeu algo. Talvez fosse exatamente disso que os dois precisassem. 

Ele olhou em volta: as paredes, os elevadores parados, as fotos dos pais pregadas no quadro de avisos. 

— Você vai trabalhar com a gente. 

Lewis piscou, achando ter ouvido errado. 

— O quê? 

— Vamos reabrir essa oficina. 

— Cheng, isso é loucura, você nem sabe se eu... 

— Vamos reabrir. — Ele repetiu, mais firme. 

Alexia ergueu a cabeça na hora. 

— Você está falando sério? 

Zhao sorriu — de verdade, pela primeira vez em meses. 

— Mais sério do que estive em muito tempo. 

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Pouco depois, os três caminhavam pela propriedade como se a estivessem vendo de novo, pela primeira vez. Alexia apontava documentos e contratos pendentes; Zhao explicava o funcionamento de cada setor; Lewis absorvia tudo em silêncio, calculando mentalmente o tamanho do desafio. 

Até chegarem ao terreno nos fundos. 

Ali, semicoberto por uma lona rasgada, ferrugem e poeira acumulada de anos, havia algo que parecia fora de lugar — quase sagrado em meio ao abandono. 

Lewis se aproximou devagar e puxou a lona. 

— Não acredito... 

Mesmo destruído, reconheceu o carro na hora: um Leat Onça, um dos esportivos brasileiros mais raros já fabricados. A carroceria estava tomada de ferrugem, os pneus tinham sumido há muito tempo, e o motor parecia tão morto quanto o resto da oficina. Mas, passando a mão sobre a lataria fria, Lewis sentiu que ainda havia alma ali dentro — só esperando alguém disposto a trazê-la de volta. 

— Posso te perguntar uma coisa? — disse, sem tirar os olhos do carro. 

— Pode. 

— Se eu restaurar ele nas horas vagas... posso ficar? 

Zhao olhou para o carro. Depois para Lewis. Depois de volta para o carro, como se estivesse calculando o valor de uma promessa. 

— Se você trouxer esse lugar de volta à vida junto comigo... ele é seu. 

O sorriso que cruzou o rosto de Lewis foi o primeiro verdadeiro em meses. 

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Nos dias seguintes, a oficina reabriu as portas. Não havia filas, nem clientes em série — às vezes um único carro entrava no pátio durante o dia inteiro. Mas era um começo, e um começo já era mais do que qualquer um deles tinha havia muito tempo. 

Lewis e Zhao se dividiam entre os poucos serviços que apareciam. Alexia cuidava da recepção e das contas, com uma teimosia que começava a se parecer com esperança de novo. E, quando o expediente terminava e o sol já tinha ido embora, Lewis caminhava até os fundos, ligava uma lâmpada velha pendurada por um fio solto, pegava as ferramentas — e voltava a trabalhar no Leat Onça. 

Peça por peça. Parafuso por parafuso. 

Assim como aquele carro abandonado debaixo da lona, os três estavam tentando fazer exatamente a mesma coisa: reconstruir, com as próprias mãos, algo que o mundo tinha decidido quebrar. 

E, sem que percebessem, naquele terreno esquecido de Solara, o futuro começava — devagar, torto, incerto — a tomar forma.

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Jul 4, 2026 21:58

Espero ver o leat onça vivo nos próximos capitulos